Pais e Filhos - A Disciplina dos Filhos

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“E vós, pais, não provoqueis à ira os vossos filhos, mas criai-os na disciplina e admoestação do Senhor”
(Ef 6:4)
“Vós, pais, não irriteis a vossos filhos, para que não fiquem desanimados” (Cl 3:21)


Em minha experiência como pai e avô tenho visto dois erros graves cometidos pelos pais, no tocante a criação de seus filhos:
(1) ausência de disciplina;
(2) disciplina descontrolada.

Alguns pais deixam os filhos “soltos” para agirem como desejarem; isso é errado, segundo o ensinamento de Provérbios. Não sou contra o uso da vara porque ela é aprovada pela Palavra de Deus. Nesse estudo vamos nos concentrar principalmente no segundo ponto: a disciplina exagerada. Em primeiro lugar quero dizer que se a disciplina for exagerada ou sem controle ela automaticamente deixa de ser disciplina. Muitas atitudes dos pais nesse sentido não passam de explosões de ira e falta de autocontrole. Freqüentemente ao disciplinar seus filhos, os pais se colocam numa posição merecedora de disciplina. A correção dos filhos só tem valor quando os pais fazem uso dentro das normas estabelecidas pela palavra de Deus. Veja o que Paulo escreveu sobre isso. “E vós, pais, não provoqueis à ira os vossos filhos, mas criai-os na disciplina e admoestação do Senhor” (Ef 6:4). “Vós, pais, não irriteis a vossos filhos, para que não fiquem desanimados” (Cl 3:21).
Observe os quatro pontos:
(1) não provocar a ira aos filhos,
(2) criá-los na disciplina e admoestação do Senhor,
(3) não irritar os filhos,
(4) para que não fiquem desanimados.

A disciplina ou correção dos filhos deve englobar estes quatro pontos, caso contrário não poderá ser considerada como disciplina nos moldes bíblicos.

1. Correção Descontrolada
O que desejo repartir com meus irmãos e irmãs em Cristo que são pais, é algo bem sério. Recebi muita ajuda de livros sobre família e criação de filhos, mas o que vou dizer em seguida é algo que está no meu coração. É um encargo pesado que preciso repartir com os pais, pois acredito que muitas situações negativas nos lares podem estar relacionadas com a questão da autoridade sem medida e a correção desgovernada. Os pais não possuem a autoridade própria para corrigir os filhos; a autoridade deles é delegada, isto é, eles recebem o direito de exercê-la em nome de outro. Deus é a Única e Verdadeira autoridade e por isso, qualquer desvio na aplicação dessa autoridade coloca os que fazem uso dela numa condição passível de repreensão. Foi o que aconteceu com Moisés quando Deus lhe mandou que falasse com a Rocha e ela daria água para o povo. Moisés, irado, representou mal a Deus, “falou irrefletidamente com sua boca” (Sl 106:33). Imediatamente ele se tornou merecedor de juízo e não pôde entrar ma terra de Canaã. Os pais quando corrigem seus filhos devem ter isso em mente sempre: eles são apenas representantes da autoridade de Deus; se agirem de forma descontrolada, estarão dizendo com sua atitude que Deus também está descontrolado. Isso é muito sério e deve ser considerado pelos pais.

2. Disciplina sem Medida
Temos um outro exemplo no Antigo Testamento que pode ser aplicado ao que estamos tratando. Quando Israel se desviava do caminho, Deus enviava outra nação para castigar o Seu povo, mas a correção tinha um limite que não podia ser ultrapassado; se uma nação usada como vara na mão do Senhor ultrapassasse do limite, Deus levantava outro povo para castigar aquele que havia ultrapassado o limite estabelecido pelo Senhor. Assim também acontece com os pais: se eles não obedecem ao limite da disciplina, o Senhor enviará a Sua vara sobre eles através de outras situações. Isso talvez explica muita das dificuldades enfrentadas nos lares dos filhos de Deus. Os próprios pais estão debaixo da disciplina de Deus sem terem conhecimento disso.

3. Limites Desrespeitados
Um outro exemplo sobre isso está na discrição que Paulo deu a respeito dos açoites que recebeu dos judeus: “dos judeus cinco vezes recebi quarenta açoites menos um” (II Co 11:24). O que significa isso? Paulo recebeu cento e noventa e cinco chibatadas dos judeus. Por que não duzentas? Por causa da lei que dizia: “Até quarenta açoites lhe poderá dar, não mais; para que porventura, se lhe der mais açoites do que estes, teu irmão não fique envelhecido aos teus olhos” (Dt 25:3). Paulo era considerado um inimigo pelos judeus, mesmo assim eles tiveram o cuidado de não ultrapassar o limite estabelecido pelo Senhor. Mas não eram permitidas até quarenta chicotadas? Por que Paulo recebeu trinta e nove? Porque naturalmente quem aplica o chicote pode perder o controle e ultrapassar o limite estabelecido. Quem disciplina deve estar sobre controle; isso é demonstrado nas trinta e nove chicotadas que Paulo recebeu. Quando o pai e a mãe começam a corrigir o filho, é muito fácil eles perderem o controle e usarem o chinelo ou a cinta em algumas vezes além do necessário. Se isso acontecer, aquele que aplica o chicote chamará a disciplina sobre si mesmo.

Além do mais, os pais devem lembrar que Deus designou anjos protetores para os pequeninos. Jesus disse que “os seus anjos nos céus sempre vêem a face de meu Pai, que está nos céus” (Mt 18:10). Por causa dos pequeninos os anjos podem ver a face do Pai nos céus diariamente. Isso indica que havendo situação de injustiça na terra para com uma dessas crianças, os anjos vão diante do Pai e atuam em favor delas. Se elas são maltratadas ou injustiçadas, isso será relatado ao Pai celestial.

Mas não devemos ter o cuidado apenas com o ato de corrigir, seja com vara, com chinelo ou cinta. Existem outros aspectos que precisam ser lembrados, se os pais almejam verdadeiramente disciplinar seus filhos dentro da vontade do Senhor. Mais uma vez lembro ao prezado leitor que as advertências aqui mencionadas vão ferir seu ego. É preciso coragem para enfrentar a realidade dos erros cometidos pelos pais, todavia uma mudança na forma de corrigir os pequeninos é de tremenda importância e seus resultados de valor inestimável para uma vida saudável no lar.

4. Falta de Tempo
Os que trabalham fora, principalmente o pai, que normalmente passa o dia fora de casa, se esquecem completamente da necessidade que os filhos pequenos têm da presença deles. Eles saem de manhã e, se voltam para o almoço, é um tempo mínimo de contato com os filhos. Alguns levam os filhos para escola sejam de manhã ou ao meio dia e depois só retornam à noite. Quando chegam do trabalho, não desejam ser incomodados com os incessantes pedidos dos pequeninos para brincar um pouquinho. O egoísmo de certos pais é tão grande que eles chegam a repreendê-los para terem sossego. Não há tempo para chutar bola, brincar de carrinho, quebra-cabeças ou qualquer outra coisa. O interesse deles é jornal ou o noticiário na TV (noticias de crimes, esporte, novela, etc). Os pequeninos têm mais contato com as pessoas de fora do que com os pais (e principalmente o pai). As mães que não trabalham fora desfrutam um pouco mais da companhia dos filhos. Tais pais não conseguem ver que é necessário investir nos filhos e dar atenção a eles. O tempo passa e eles não aproveitam aqueles anos preciosas da inocência desses “bichinhos adoráveis”. Quando dão por conta eles já cresceram e se tornaram adultos. Que perda irreparável!

5. Atitudes e Palavras Ásperas
Sinto um grande aperto no coração quando presencio a forma rude, bruta e sem compaixão dos pais para com seus filhos pequeninos. Em alguns casos podemos usar até a expressão bem forte: é uma verdadeira covardia. Os pequeninos, indefesos no sentido físico, psicológico e espiritual, não são respeitados em seus direitos de criança. Geralmente são tratados como se fossem adultos rebeldes. As palavras e atitudes dos pais geralmente vão além do necessário. Uma criança faz algo errado e os pais dão berros e gritos com ela; alguns chegam a rosnar como se fossem irracionais. Para não falar da postura já errada dos pais que assim agem, é preciso lembrar que esse é o ensino que a criança está recebendo. Amanhã ela vai devolver exatamente o que viu o pai e a mãe fazendo. Você já viu a expressão do seu rosto quando está corrigindo seu filho? Não! Ah, você precisa ver. Certamente vai pensar que é outra pessoa! Tenham cuidado para não provocar medo em seus filhos. Gritarias e repreensões intermináveis só produzem crianças reprimidas e sonsas. Sejam mansos e dóceis para com seus filhos, principalmente os pequeninos. Não sejam ásperos, ríspidos ou duros com seus filhos. “Daí e dar se vos á” é o ensinamento da palavra de Deus.

6. Cobrança Constante
Que coisa triste e lamentável é ver os pais cobrando o tempo todo dos filho. Se alguém anotar durante o dia todo quantas vezes o pai ou a mãe chama a atenção de um filho, com certeza terão um choque tremendo. Isso demonstra que os pais não têm consciência de estarem treinando seus filhos para Deus e para a sociedade. Não há espaço para erro. Os pequeninos entram para o quartel com dois ou três anos de idade e recebem exigências que não poderão cumprir. O resultado é castigo após castigo. Se isso acontece em um determinado lar, o resultado inevitável será um espírito de desânimo alojado no espírito da criança. Essa foi a advertência do Senhor em Colossenses 3:21. Filhos irritados perdem o ânimo para enfrentar a vida. Tudo o que eles conhecem é repreensão e critica. Os pais que não aprendem a elogiar e incentivar os filhos pequenos, nunca terão sucesso com eles no futuro.

Li certa vez algo assim: “Um pai trabalhava na horta e seu filho pequenino o ajudava. O vizinho notou que a criança arrancava as verduras e deixava os matos e disse ao pai: olha vizinho, seu filho vai dar um grande prejuízo agindo assim. O pai lhe respondeu: não, caro vizinho, não vou ter nenhum prejuízo. Eu não estou cultivando minha horta; eu estou investindo no meu filho.” Quanto prejuízo nosso Pai celestial tem conosco, Seus filhos adultos; quantas vezes erramos fazendo a mesma coisa e Ele sempre nos oferece uma segunda chance. Devemos aplicar o mesmo tratamento aos nossos filhos!

7. Incentivo para Errar
Certas atitudes de alguns pais são exatamente como a tentação que vem do maligno. O que quero dizer com isso? Simplesmente que os pais tendo conhecimento de certas dificuldades que os filhos têm, ainda insistem para que eles ajam de forma diferente. Por exemplo: um filho não gosta de nata no leite, mas os pais insistem em oferecer um copo de leite com bastante nata. Se eles recusam são repreendidos e castigados. Palavras duras são usadas e a personalidade da criança é esmagada. Uma criança tem medo de escuro, mas os pais a colocam em um quarto fechado e com a luz apagada. Quando fazem isso estão agindo no mesmo princípio do Diabo: é uma tentação. Os pais podem não gostar de determinadas coisas, mas os filhos não têm esse direito. O pai não gosta de jiló, a mãe não gosta de peixe, mas os filhos têm que gostar de tudo. Dois pesos e duas medidas!

8. Padrões não Atingíveis
Considero uma verdadeira crueldade estabelecer alvos para os filhos, quando sabemos de antemão que eles não possuem condições de alcançá-los. Conheci um bom pai que não aprendeu certas leis fundamentais para a criação dos filhos (e por isso não o critico). Ele queria de toda forma transformar um filho que era desenhista nato em motorista de caminhão. Esse filho foi profundamente afetado em sua vida profissional por causa dessa exigência. Ele não conseguia atingir o nível estabelecido por seu pai e ficava frustrado. Ele perdeu praticamente o sentimento de respeito próprio. Isso veio a refletir até em sua própria família mais tarde. Essas coisas trazem desânimos sobre os filhos e provocam situações muito piores.

Não ouso criticar esse velho pai, porque ele não recebeu nada além disso. Mas aqueles que podem aprender e muitas vezes são aconselhados por aqueles que já passaram por esse caminho e mesmo assim continuam estabelecendo padrões não alcançáveis para seus filhos, a esses eu critico fortemente. Mais ainda, me sinto na obrigação de chamar sua atenção para as sérias conseqüências que resultarão.

9. Provocação para Mentir
Outra coisa que os pais geralmente fazem com os filhos pequenos é provocá-los a mentir. Como isso acontece? Digamos que os pais já tenham conhecimento de algo errado que um filho fez. O pequeno está na sala brincando sozinho. De repente ouve-se um barulho e a mãe para lá corre e constata que um vaso de planta foi jogado ao chão. A terra está espalhada e a planta toda quebrada. As janelas estão fechadas impedindo a passagem de vento; é óbvio, portanto, que a criança fez a arte. Aí a mãe pergunta: Quem fez isso? Tal atitude é a mesma coisa que provocar uma mentira. Devemos perguntar quando não sabemos e não há nenhuma evidência do autor. Mas nesse caso, estaremos dando uma chance à criança de mentir. Isso é condenável!

10. E quando os Pais Erram
Todos os pais têm seus erros. Quem os disciplinam quando erram? Se quebram um prato, um copo, se derramam suco na toalha, se entram com os pés sujos de barro dentro de casa, quem os corrige? Como não há outro maior do que eles dentro de casa, tudo fica do mesmo jeito! Isso significa que há dois pesos e duas medidas, não é mesmo? Será que os pais se lembram disso? Eles cobram dos filhos todo o tempo, mas eles mesmos passam por cima de todos os erros! Não é uma atitude esquisita? Se os pais se sentem desanimados em um dia muito quente, podem deixar de fazer suas tarefas, podem dormir de tarde, podem faltar ao trabalho, podem deixar de almoçar e jantar, podem assistir TV em uma hora não muito apropriada, etc. Mas os pequeninos não! Para eles existem Leis que não podem ser quebradas! Como a Lei Áurea é esquecida nessa questão de criação dos filhos: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo! Isso se aplica também aos filhos. Eles são o nosso próximo e de uma forma especial.

11. Orações Impedidas
Queridos pais, me permitam ser ainda mais franco com vocês. Existem situações em suas vidas por resolver? Orações não respondidas? Ausência de vitória na vida cristã? Com temor e tremor diante do Senhor, aconselho a vocês que considerem em oração como vocês têm tratado os seus filhos. Pensem comigo: Se um líder agir errado para com uma ovelha e não se retratar, Deus não irá corrigi-lo? Se um patrão crente pratica injustiça com um empregado, Deus não tratará com ele? Certamente que sim. O Apóstolo Pedro disse que as orações dos maridos podem ser impedidas diante de Deus, se eles não tratarem suas esposas corretamente (I Pd 3:7). O mesmo principio pode ser aplicado ao tratamento que os pais dão aos seus filhos, porque Deus não faz acepção de pessoas.

Autor: Delcio Meireles


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